27 de Maio de 2008. Manhã. Uma chuva para lá da janela. Tudo corre como deveria correr. Excepção: ontem à noite, um maluco num debate de TV, bramindo contra o sistema. Que maluco!
Nome: Medina Carreira. Profissão: economista, político jubilado, escritor de livros baratos com directores de canais noticiosos.
O homem criticava tudo e todos, o homem misturava o seu tradicionalismo em relação às “coisas” com uma esperança de um futuro diferente que lhe parecia provocar, ao mesmo tempo, saudades de um passado idílico que ele afirma, entrelinhas, nunca ter existido. Doido!
[Um conservador futurista talvez?!]
Lá estavam todos, o representante do regime (o mau da fita, o Sancho Pança, ou o que quiserem), procurando salvar o cargo a troco de uns elogios a um Primeiro-ministro que “se empenha pessoalmente em garantir os contratos com investidores externos” (e que no futuro, quiçá, fará de carpinteiro, enchendo cimento, pintando pessoalmente as paredes dos hotéis, e ainda, se lhe derem uma rua para jogging, decorará pessoalmente o interior das instalações das indústrias… What a great Prime-minister we do have! Indeed…). Lá estavam todos, dizia eu, o representante do regime, o representante da “oposição moribunda” (vulgo, comunismo), lembrando o saudoso Marx (e Engels), apelando a uma “nova forma de ver as coisas” e criticando a educação por não ensinar a cartilha comunista aos miúdos (enorme perda cultural, quiçá de entretenimento… do mundo e talvez, só talvez, da Europa!) – esse mesmo “camarada” que pouco depois diria que as crianças são muito atentas e que o ouvem, “em Abril e em Março, todos os anos, quando [os dirigentes comunistas erradicados nas direcções das escolas e nos sindicatos “independentes”] lá me chamam para lembrar o 25/4” (e ainda dizem que a educação portuguesa não ensina a cartilha…). Estava lá a sensatez prudente e moderada (“suave” parece bem), um tanto cheirando a mofo, mas vá, contrariando os excessos do louco que dizia as verdades mas que às vezes (pronto, as mais das vezes), dizia algo mais do que aquilo que pretendia dizer. E estava lá o lambe-botas (nunca devemos esquecer o lambe-botas…) que, começando sempre por dizer “como diz o dr. Medina Carreira… Parece-me muito acertado o dr. Medina Carreira…”, por fim lá cedeu ao Sancho Pança quando este lhe disse “tenho lá uns 64 projectos na Agência, um deles é aqui do dr.” [lambe-botas, dr. em qualquer coisa, como todos os lambe-botas] – acabando por virar as costas ao seu colega de mesa para dizer, alto e bom som (um pouco timidamente) que o Sancho é que tinha razão. (Não esquecer: um lambe-botas será sempre um traidor. Até teve tempo para gozar com Santana Lopes… e eu que pensava tê-lo visto abraçado a ele num comício por aí nas últimas legislativas!)
Falemos do homem. O homem criticava todos, elegeu Sancho Pança o seu alvo para todas as horas, mas acabou por atacar também o jornalista sentado no meio do público, e teceu alguns elogios pouco elogiosos, um tanto de desprezo, ao camarada oitocentista. His point: o país caminha para o abismo. Um gráfico em riste sempre que Sancho dizia que a situação estava a melhorar, que o PM isto, que o Pinho aquilo, que tinham ido à Venezuela vender “pessoalmente” esparguete (português e do bom!). Para ele, a questão não é conjuntural, não é de saber se o país este trimestre está uma décima melhor do que no anterior, se o PM vende esparguete à bolonhesa ou à carbonara, se o IDE desceu 50 mas porque antes tinha subido 80. A questão, para o velho louco e desmesurado nas palavras, limita-se a isto: há quarenta anos que Portugal tem vindo a baixar o crescimento, e em vinte, se tudo se mantiver como está, seremos o Estado-membro mais fraco, menos pujante, mais pobre vá, da União, e os media não dizem nada. Alguém me pode dizer que nisto ele não tem razão?
Falou-se de tudo o que Medina Carreira disse. Falou-se do seu tradicionalismo económico, do apego dele às coisas físicas (que o país 'não se constrói com serviços, mas sim com indústria') – a avó simpática e contida até disse, e bem, “se assim fosse, os EUA não existiriam!”. Falou-se do seu comportamento alternativo. Falou-se de tantas outras coisas. Mas ninguém falou daquilo que era mais importante no discurso, ora pouco ortodoxo, ora faccioso, ora perverso, do herói da noite: o país há muito que está mal, as reformas deste Governo são nada, o crescimento que temos não basta, a imprensa está manipulada (vamos ser politicamente correctos: “distorcida”). Isso ninguém contestou, nem ninguém comentou.
E foi um bom momento, deu para rir das loucuras de um velho de esquerda lutando contra moinhos pensando serem gigantes. E tudo corre como deveria correr…
Mas lá mais para o inverno que é para nos aquecer...Agora não tem piada Lol
Beijinho