“- […] Mas sinto que o coração tem as suas próprias estações.
- Primavera, Verão…
- Um ciclo que não é exactamente igual ao outro, pois, para além das quatro estações habituais, também inclui a Nova Primavera.
- Que…
- Simboliza a esperança e a confiança no recomeçar, no renascer.
- E a ternura…
- Seja em que época for, é fundamental. Mansamente, ajuda sempre a conseguir a tal força que esbate diferenças, conflitos, e afasta a amargura – e no tom de quem concluiu um pensamento, acrescentei: - Por isso, a ternura pode mesmo salvar a vida.
- Continua – pediu, de novo.
- Mas para tudo isto, é preciso ter tempo para, juntamente com a bondade e a lealdade, preparar o tal ritual diário de cuidar da beleza da Linguagem dos Afectos. Sempre a tentar aperfeiçoá-la, embelezá-la, fortalecê-la mais e mais.
- Continua – pediu, mais uma vez.
- E como a Linguagem depende do estado em que está o coração, os vários corações que vai encontrando, ela tem, à semelhança das pessoas, vitórias e derrotas, alegrias e tristezas. É tão parecida com todos nós. Tão fascinantemente humana! Até nos segredos.
- Segredos?
- Tem muitos. E, se a Linguagem dos Afectos conhece todos os segredos das pessoas, às pessoas falta ainda conhecer muitos dos seus segredos.
- Fala-me desses segredos.
- […]
- Às vezes, tal como num jogo de afectos, e sobretudo na vida, só quando saímos de perto da Rede dos Afectos, conseguimos perceber os caminhos que levam a gostar outra vez. Porém, entendo um pouco melhor como é que se gosta e porque é que se gosta.
- Então…
- Para esta linguagem, é decisiva a maneira como vamos tecendo a Rede dos Afectos.
- Porque somos nós… - Que a tecemos, que a fazemos e desfazemos, e fazemos e refazemos. E ela será mais forte ou mais fraca conforme o nosso empenhamento.
- […]
Aproximámo-nos ainda mais um do outro.
Ficámos em silêncio a assistir ao fantástico entardecer.”
Graça Gonçalves
AHHHH
**KISOONN DA MANHA