Não é um vicio não, é uma vingança. Acontece quando acordo a meio da noite e estico os braços à procura e não sei que estou só. A cama é grande e só do meu lado está desfeita. Acordo à procura do corpo que faz falta e só tenho o meu que está a mais. Fecho os olhos, como se já não estivessem fechados, e o que está dentro de mim é uma ânsia. Então chegam imagens de um corpo antes de saber que é o dele. Um corpo não, pedaços de um corpo, pequenas alucinações. Duas mãos começam agarrar'me as ancas e uma boca a bafejar'me a cara. É ela que fala. Ouço dizer'me as coisas que me diz e calo'me. Ouço'o chamar os nomes que me chama e eu vou. Começo a desfazer'me para que me faça. O corpo que eu toco não é de ninguém. Quando não basta repete, quando não basta repito. E depois há uma coisa que vem de muito longe e não quer acabar de vir. Vem a mim, que eu não consigo ir a ela. Estou comigo. Não é um corpo, não. É um fugir. Um barulho. Qualquer coisa assim que vem, que agrra e passa. Um bicho. Não é um corpo, não, porque os não há. Às vezes ouço'me gritar, ou julgar que grito e depois fico quieta como se corresse perigo. Começo a pensar nele e acabo a pensar em mim, os cabelos desfeitos, uma ânsia sem fim .
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